domingo, 28 de agosto de 2011

ERA O QUE FALTAVA EM MIM

O despertador toca às sete. Apesar do frio e de ter ido deitar quase três da manhã, pulo da cama alvoroçada pelos latidos histéricos dos cães da vizinhança e pelos gemidos vindos da casa ao lado, geminada. No miniquintal, a cachorra, que também foi dormir quase três, me recebe sonolenta, espreguiçando-se, patas pra frente, bunda pra cima. Abro a porta da frente para deixá-la fazer xixi nas pedrinhas, e um céu azul invade a cozinha, junto a uma brisa gélida, que me anima a botar água na velha e fotogênica chaleira para preparar um chá de hortelã. Aquecida, troco de roupa e a levo para uma rápida caminhada matinal. Hora de gastar um pouco da energia canina, que voltará a se acumular durante a manhã solitária. De volta, abasteço o pote de ração e lhe entrego um osso de courinho, pego bicicleta, capacete e luvas e pedalo os próximos 20 minutos rumo ao trabalho.

Contando assim, é como se me fosse um dia qualquer. Não é. É o primeiro de muitos dias bonitos que virão. Cacaua, a vira-lata manezinha que adotei ainda filhote há quase quatro anos, está de volta. Um ano e dois lares meus depois. Nesse tempo, em que morei num apartamento pequeno e numa casa hiperúmida, ela esteve com minha mãe, no interior paulista, a mil quilômetros daqui. Fez tanta falta que, por mais que eu tenha me acostumado com a ausência dela, os dias, por mais cheios que fossem, foram todos incompletos. Por mais que houvesse, não havia motivo para estarmos separadas. Por mais que fizesse, não fazia sentido a distância. Para alguns, pode parecer que me faltam humanos, isso sim. Mas é justamente por ela ser uma cadela e eu a tratar como tal, que ninguém consegue ocupar seu lugar.
Durante o almoço, tive certeza disso tudo. Pedalei de volta pra casa, passando pra pegar comida num restaurante natural. Ela me recebeu contente, sem agitação e sem pular – num cão, euforia ao te ver é energia e ansiedade demais acumuladas, não é felicidade, como pensam muitos; se pular em ti, é pra mostrar dominância, e não alegria. Fiz o prato e me sentei no chão, no pequeno hall de entrada, onde pega sol o dia todo. Ela veio e sentou-se ao lado, sem se aproximar da comida. Pra mim, uma cena comum. Ela só come se autorizada. O que me tocou foi o belo momento criado pela simples presença dela. Eu, no intervalo do trabalho, almoçando ao calmo sol de inverno, sentada no chão de casa, segurando um grande prato de plástico verde. Ao lado, a Cacaua deliciando-se com pedacinhos de hambúrguer de soja com gengibre e abobrinhas amargas. Logo ali nas pedrinhas, na falta de um fotógrafo, minha memória empunhando uma câmera e um sorriso.
Sorriso que carreguei o dia todo. Dia que pareceu ter sido feito pra beleza das minhas pequenas coisas. Ainda durante o almoço, desceu pra mim. Dessa vez, eu não estava de TPM aparente (talvez ter me livrado de todos os medicamentos de uso contínuo, incluindo a pílula, e vir evitando qualquer tipo deles, esteja contribuindo para isso). O que estava leve virou pluma. Como na maioria das vezes, o sangue desceu e trouxe poemas. Trouxe a Cacaua. Cacaua trouxe sangue pulsante, que trouxe vida e vontade. Trouxe novos dias.
Cacaua também levou vida. No tempo em passou com minha mãe, ensinou-lhe muita coisa. Uma delas, a gostar e cuidar de cachorros. Ela que se não interessava por eles, descobriu como amá-los e aproveitar-lhes a companhia. Já até tem uma potencial sucessora quadrúpede, para ser adotada em breve. A presença canina ajuda-a a combater um medo antigo de ladrão, fazendo com que se sinta mais segura em sua própria casa.
Para ir fechando o dia feito por e para as belezas das minhas pequenas coisas cotidianas, ao cair da noite tive o encontro semanal com a psicóloga. Numa frase, queria que todos a tivessem como terapeuta; o mundo seria mais bonito. Saindo de lá, comprei um cachorro-quente vegetariano, passei em casa, deixei a bike e peguei a Cacaua para uma caminhada longa, dessa vez a fim de gastar a energia acumulada durante a tarde solitária e colocá-la em contato com o instinto canino de migração e matilha, mesmo que numa matilha de dois. Antes de voltar, uma passadinha no parquinho da praça para lhe propor desafios psicológicos: andar sobre a ponte móvel de madeira, a tal “ponte do rio que cai” da minha infância, subir e descer pelo escorregador, subir e descer escadas... Mais de uma hora depois, ração pra ela e banho pra mim.
Por fim, sentar e escrever, enquanto a Cacaua, poesia do meu dia, e dias, dorme no miniquintal, quentinha na caixa transportadora que virou casinha temporária, envolvida por papelão e forrada com uma proteção de espuma e um cobertor usados por mim quando bebê. Não sei exatamente por que ela me faz tão bem e não sei se preciso saber. Talvez seja pelo fato de que cachorros não precisam da fala para se comunicarem. Cachorros não teorizam, simplesmente sentem e se expressam com o corpo. Cachorros não planejam o futuro nem remoem o passado. Vivem sempre no agora. E é do agora que eu preciso.

Fonte:http://revistanaipe.com/blogs/descomplicadas (Daniela Cucolicchio)

sexta-feira, 26 de agosto de 2011

MANTER A COERÊNCIA DE QUERER SER INCOERENTE

Mudar não é ruim. Mudar de opinião, de concepção, de doutrido que seja… mudar não é tão mal assim.Passamos a vida aprendendo que manter suas crenças é a melhor forma de demonstrar coerência em suas atitudes. Um homem sem coerência não é nada! O problema é que na formação humana e social, nada é estável. Nenhuma regra pode ser replicada sem desvio de resultado. O que te aflige, te traz sorte ou felicidade, não é motivo para outra pessoa seguir seu exemplo, nem mesmo você acreditar que isso será tal qual já foi perpetuamente.na, Conheci algumas pessoas que se propuseram a coerência. Enquanto eu me propus a ser feliz. Descobri que todo conceito pode ser alargado, condicionado e redefinido nas ciências humanas, de acordo com o tempo, objeto ou situação.Querem um exemplo? O motivo que me fez chegar a esse papo, debate colocado em pauta durante a Copa América 2011 na Argentina. Paulo Vinícius Coelho disse a frase mais sensata, É tão coerente o trabalho desse treinador e dos outros que aqui estiveram, E dentro de sua coerência que ele pode ser taxado de burro ou naufragar na sua coerência.Um dia sua exatidão te colocará em prova. Ou vais carregar consigo uma amargura terrível por não mudar e assim vais perder algo. Uma vida, um amigo, um amor, ou qualquer artefato físico de valor sentimental. Ou vais ter que aceitar quebrar tua dureza, dizer que as situações e as suas decisões são mutáveis. Com isso, manter quem, que tu queres. Todavia, vais carregar consigo a amargura de olhar para os outros que te julgam não ter coerência. Nessa hora, lembre-se, mantiveram-se contigo os teus valores. Eles apenas mudaram para você melhor crescer com as situações que a vida te impõe.
Fonte: http://umpoucodelorota.wordpress.com (Rodrigo Fuser)

quinta-feira, 25 de agosto de 2011

UM POUCO DE POESIA...

"Gosto dos venenos mais lentos, das bebidas mais amargas, das drogas mais poderosas, das idéias mais insanas, dos pensamentos mais complexos, dos sentimentos mais fortes… tenho um apetite voraz e os delírios mais loucos.Você pode até me empurrar de um penhasco que eu vou dizer:- E daí? Eu adoro voar!Não me dêem fórmulas certas, por que eu não espero acertar sempre. Não me mostrem o que esperam de mim, por que vou seguir meu coração. Não me façam ser quem não sou. Não me convidem a ser igual, por que sinceramente sou diferente. Não sei amar pela metade. Não sei viver de mentira. Não sei voar de pés no chão. Sou sempre eu mesma, mas com certeza não serei a mesma pra sempre"
Fonte: Clarice Lispector

segunda-feira, 22 de agosto de 2011

QUEM SOU EU?

Ja nem sei mais quem sou...
Talvez aquilo que você pensa, ou o que penso...
quem sabe quem eu sou?
quem sabe eu sou o pensamento...
quem sabe eu sou o sentimento...
quem sabe eu seja aquele que você quer que eu seja...
quem sabe eu sou aquele que está aqui pra cumprir sua missão!!!
ou quem sabe eu seja o amor, a paz, a alegria, a felicidade...
eu posso ser o que você não pensa...
quem sabe talvez eu seja o que penso...
posso ser o que eu sou...
ou o que eu não penso...

Fonte: pensador.uol.com.br/autorrodrigo_de_almeida/

sexta-feira, 19 de agosto de 2011

PERMANENTE IMPERMANÊNCIA

Já ouviu falar da impermanência?
Já diziam nossos avós, tudo passa, tudo passará...
A impermanência tem especial significado nos ensinamentos budistas, neles, muitas vezes divide-se para entendimento a impermanência do objeto, ou fenômeno, e também a impermanência do sujeito, ou do percebedor.
Melhor explicando, não dura para sempre, nem quem observa, nem quem é observado.
Você pode dizer, OK, e daí?
Aplique este conceito para certas coisas de sua vida.
Seu emprego, seu companheiro, seus filhos, seus pais e suas amizades são impermanentes. Não vão durar para sempre.
Agora parece que o assunto ficou denso, pesado, não.
Mas o ensinamento da impermanência não é tão negativo assim, pois senão seria niilista, isto é, não apontaria nada para se fazer, apenas uma completa aceitação.
A impermanência é um constante professor de nossas infinitas possibilidades e de nosso livre-arbítrio.
Como tudo é impermanente, ao fazermos este reconhecimento, percebemos bem de perto, que todas as coisas estão se transformando pouco a pouco. Suas mãos não são as mesmas mãos de 10 anos atrás. A constante transformação nos possibilita agir, direcionar, realizar algo para dar rumo a esta transformação.
Assim confirmamos o ensinamento que o Professor Hermógenes nos faz em “Setas no Caminho de Volta”, a colheita é obrigatória, mas a semeadura é opcional.
Podemos plantar a nossa colheita, e gerar frutos de tranquilidade, compreensão e amor.

Fonte: Vitor Caruso Jr.       cienciameditativa.blogspot.com      

terça-feira, 16 de agosto de 2011

AMOR DE MÃE

Fonte: desconheço a autoria da foto. 
Se alguém souber, por favor, informe para o devido crédito.
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segunda-feira, 15 de agosto de 2011

LEIA E REVISE SEU LIVRO DA VIDA

A ignorância não tem começo, mas tem um fim.
Há um começo mas não um fim para o conhecimento.

sexta-feira, 5 de agosto de 2011

SE NÃO QUISER ADOECER FALE DE SEUS SENTIMENTOS

Emoções e sentimentos que são escondidos, reprimidos, acabam em doenças como: gastrite, úlcera, dores lombares, dor na coluna.. Com o tempo a repressão dos sentimentos degenera até em câncer. Então vamos desabafar, confidenciar, partilhar nossa intimidade, nossos segredos, nossos pecados.
O diálogo, a fala, a palavra, é um poderoso remédio e excelente terapia..

Se não quiser adoecer - "Tome decisão"
A pessoa indecisa permanece na dúvida, na ansiedade, na angústia. A indecisão acumula problemas, preocupações, agressões. A história humana é feita de decisões. Para decidir é preciso saber renunciar, saber perder vantagem e valores para ganhar outros. As pessoas indecisas são vítimas de doenças nervosas, gástricas e problemas de pele.

Se não quiser adoecer - "Busque soluções"
Pessoas negativas não enxergam soluções e aumentam os problemas.
Preferem a lamentação, a murmuração, o pessimismo. Melhor é acender o fósforo que lamentar a escuridão. Pequena é a abelha, mas produz o que de mais doce existe. Somos o que pensamos. O pensamento negativo gera energia negativa que se transforma em doença.

Se não quiser adoecer - "Não viva de aparências"
Quem esconde a realidade finge, faz pose, quer sempre dar a impressão que está bem, quer mostrar-se perfeito, bonzinho etc., está acumulando toneladas de peso... uma estátua de bronze, mas com pés de barro.
Nada pior para a saúde que viver de aparências e fachadas. São pessoas com muito verniz e pouca raiz. Seu destino é a farmácia, o hospital, a dor.

Se não quiser adoecer - "Aceite-se"
A rejeição de si próprio, a ausência de auto-estima, faz com que sejamos algozes de nós mesmos. Ser eu mesmo é o núcleo de uma vida saudável. Os que não se aceitam são invejosos, ciumentos, imitadores, competitivos, destruidores. Aceitar-se, aceitar ser aceito, aceitar as críticas, é sabedoria, bom senso e terapia.

Se não quiser adoecer - "Confie"
Quem não confia, não se comunica, não se abre, não se relaciona, não cria liames profundos, não sabe fazer amizades verdadeiras. Sem confiança, não há relacionamento. A desconfiança é falta de fé em si, nos outros e em Deus.

Se não quiser adoecer - "Não viva SEMPRE triste!"
O bom humor, a risada, o lazer, a alegria, recuperam a saúde e trazem vida longa. A pessoa alegre tem o dom de alegrar o ambiente em que vive.
"O bom humor nos salva das mãos do doutor". Alegria é saúde e terapia".



Fonte Dr. Dráuzio Varela

quinta-feira, 4 de agosto de 2011

O QUE É CABALÁ

Cabalá: aquilo que é recebido. Aquilo que não pode ser conhecido apenas através da ciência ou da busca intelectual. Um conhecimento interior que tem sido passado de sábio para aluno desde o despertar dos tempos. Uma disciplina que desperta a consciência sobre a essência das coisas.
Entramos neste mundo e nossos sentidos encontram sua crosta externa. Tocamos a terra com nossos pés, a água e o vento atingem nossa pele, recuamos perante o calor do fogo. Escutamos os sons e ritmos. Vemos formas e cores. Logo começamos a medir, a pesar e a descrever com precisão. Como cientistas, registramos o comportamento dos compostos químicos, das plantas, animais e seres humanos. Nós os gravamos em video-tape, observamos sob o microscópio, criamos modelos matemáticos, enchemos um supercomputador com dados a seu respeito. De nossas observações, aprendemos a domar nosso ambiente com invenções e engenhocas, e então nos damos um tapinha nas costas e dizemos: "Isso mesmo, conseguimos."
Mas nós mesmos, nossa consciência, que está examinando este mundo, residimos em uma camada mais profunda. Eis por que não podemos deixar de perguntar: "E sobre a coisa em si mesma? Aquilo que está lá antes que a medíssemos? O que é matéria, energia, tempo, espaço - e como vieram a ser?Para explicar nosso mundo sem examinar esta profundeza interior é tão superficial quanto explicar o trabalho de um computador descrevendo as imagens vistas no monitor. Se virmos uma bola movendo-se para cima e para baixo na tela, diríamos que está ricocheteando contra o fundo da tela? Os dispositivos na sua barra de rolagem exercem alguma força sobre a página dentro da tela? A barra do menu tem realmente os menus ocultos atrás dela?
O autor de um software de uso facilitado seguiu regras consistentes para que você possa trabalhar confortavelmente dentro dele. Se for um jogo de alguma complexidade, ele precisou determinar e seguir um grande conjunto de regras. Mas uma descrição destas regras não é uma explicação válida de como isso funciona. Para isso, precisamos ler seu código, examinar o equipamento, e, mais importante - examinar a descrição de seu conceito original. Precisamos vê-lo da maneira que o autor o vê, como evolui passo a passo de um conceito em sua mente através do código que ele escreve, até os pontinhos fosforescentes minúsculos na tela.
O código por trás da realidade, o conceito que instila vida às equações e as torna reais. Homens e mulheres sacrificaram seu alimento, seu conforto, viajaram grandes distâncias e pagaram com sua própria vida para chegar a conhecer estas coisas. Não há uma só cultura neste mundo que não tenha seus ensinamentos para descrevê-las. Nos ensinamentos judaicos, elas são descritas na Cabalá.
Segundo a tradição, as verdades da Cabalá foram conhecidas por Adam (Adão). Aquilo que sua mente apreendeu, nenhuma outra mente pode conceber. Mesmo assim ele foi capaz de transmitir um vislumbre de seu conhecimento a algumas das grandes almas que dele descenderam, como Hanoch e Metushelach. Foram eles os grandes mestres que ensinaram Nôach (Noé), que por sua vez ensinou seus próprios alunos, incluindo Avraham (Abraão). Avraham estudou na academia do filho de Nôach, Shem, e enviou seu filho Yitschac para lá estudar, depois dele. Yitschac por sua vez mandou seu filho Yaacov estudar com Shem e com o bisneto de Shem, Ever.
Adam, Nôach, Avraham - estes foram pais de toda a humanidade. Eis por que você encontrará alusões às verdades que eles ensinaram seja onde for que tenha chegado a cultura humana.
Mesmo assim, a fonte essencial para a Cabalá não é Adam ou Nôach ou mesmo Avraham. É o evento no Monte Sinai, onde a essência primordial do cosmos foi desnudada para que uma nação inteira a contemplasse. Foi uma experiência que deixou uma marca indelével sobre a psique judaica, moldando por completo nossas idéias e nosso comportamento desde então.
No Sinai, a sabedoria interior tornou-se não mais uma questão de intuição ou revelação particular. Era então um fato que havia penetrado em nosso mundo e se tornado parte da história e da experiência dos mortais comuns.
Eis por que a Cabalá não pode ser chamada de filosofia. Uma filosofia é o produto de mentes humanas, algo com que qualquer outra mente humana pode jogar, espremê-la ou esticá-la segundo os ditames de seu próprio intelecto e intuição. Mas Cabalá significa: "que é recebida." Recebida não apenas de um professor, mas do Sinai. Assim que o aluno tenha dominado o caminho deste conhecimento recebido, ele ou ela pode encontrar maneiras de expandi-lo ainda mais, como uma árvore se ramifica a partir de seu tronco. Mas será sempre um crescimento orgânico, jamais tocando a vida e a forma essenciais daquele conhecimento. Os ramos, galhos e folhas irão apenas onde deveriam para aquela árvore em particular - um bordo jamais se tornará um carvalho, e jamais um aluno revelará um segredo que não estivesse oculto nas palavras de seu mestre.

Fonte:http://www.chabad.org.br/datas/shavuot/a%20tora/cabala.html

quarta-feira, 3 de agosto de 2011

LIBERDADE, SEXUALIDADE, VISIBILIDADE

Teria o mundo se transformado numa grande vitrine na qual só quem se exibisse poderia fazer parte dele?
Mulheres comuns estão tirando as roupas e exibindo sua nudez. Algumas participam de ensaios de fotos sensuais feitas em estúdio para presentear maridos ou namorados; outras estampam calendários, vendidos para angariar fundos para alguma causa social. Sem motivos aparentes, mães de família de classe média americana, por exemplo, responderam ao apelo de um site para serem fotografadas nuas em alguma atividade banal, como jogar cartas. Suas fotos podem ser vistas por quem quiser visitar o tal endereço na internet. Teria o mundo se transformado em uma grande vitrine e somente quem conseguir certa visibilidade (seja lá qual for o preço) pode fazer parte dele? A liberdade sexual alcançada nas últimas décadas pelas mulheres as estaria incentivando a “assumir” sua sensualidade sem constrangimentos? Seria mais fácil hoje viver a fantasia feminina (antes inadmissível) de ser parte do imaginário erótico masculino? Por que, diante de tanta liberdade para escolhermos estilos de vida sexual e modos inusitados de gerenciar nosso corpo, a exibição deste nos parece tão sedutora? 
Refletir sobre esta associação entre liberdade, sexualidade e visibilidade requer uma pequena – e não tão simples – revisão do percurso da cultura, este complexo patrimônio simbólico produzido por nós mesmos, sem deixar de lado o fato de as mudanças de alguns valores, que antes demoravam mais de uma geração para se constituir, hoje nos atropelarem com novas e inusitadas questões. Dentre elas, as desconstruções radicais de antigas crenças e modos de existência, que aparecem tanto na maneira de viver a sexualidade (independentemente do gênero), incluindo aí os contornos e limites do corpo erótico (principalmente para as mulheres), quanto a “midiatização” do cotidiano. Vale lembrar que a publicidade se apropriou de imagens eróticas femininas para agregar valor às mercadorias.
Freud foi um dos teóricos mais sensíveis ao papel que a sexualidade humana teria na produção de cultura e, percebendo seu caráter disruptivo, apontou a importância de sua regulação para um gerenciamento da convivência. Para cada época existem comportamentos que são incentivados e aprovados e outros que costumam ser desestimulados e condenados. O apetite sexual das mulheres já foi encarado como uma alquimia de feiticeiras e bruxas prontas a exercer as tentações que culminariam com a perdição da alma humana, mas estão longe de nós os dias em que a sexualidade humana – e o ato sexual, propriamente dito – era tabu. Hoje, esses assuntos fazem parte de uma ciência que se preocupa em nos informar sobre como bem viver.

Mas é justamente por falhar repetidas vezes em conformar as normas e restrições da cultura que a regulam que a sexualidade humana se manteve durante grande parte da história como um tema pouco veiculado. Isto foi particularmente mais verdadeiro em relação à sexualidade feminina, abafada sob diferentes justificativas, fosse pela ideologia judaico-cristã que nos guiou durante séculos exaltando um modelo de mulher assexuada, fosse porque coube aos homens, durante longo período, gerenciar a distribuição de prazer (e de poder) da cultura, tomando para si a parte majoritária. Com isso, as mulheres viveram muito tempo entre dois modelos: o da santa (todas as “mães puras”) e o da prostituta (as mulheres que exalassem sensualidade). Ambos gravitam em torno de uma lógica masculina de compreensão do feminino, fantasia que ainda prende pessoas de ambos os sexos, com aval da cisão promovida pela tradição cristã que tanto dividiu de um lado o amor sexual e de outro o sentimento casto, quanto tentou dar um destino à interdição do corpo materno, santificando-o.
O recato (cobrir as partes do corpo que pudessem lembrar qualquer sinal de êxtase) foi por muito tempo uma norma, um imperativo que visava acalmar as pulsões eróticas das mulheres, assim como os temores masculinos de uma sexualidade feminina ilimitada. Paradoxalmente este recato como regra abriu a possibilidade para que cada parte do corpo feminino pudesse se transformar em fetiche para os olhos desejosos dos homens (vide o longevo sucesso das revistas com poses sensuais ou com nudez parcial, voltadas para o consumo principalmente masculino). Hoje não só a mulher foi sensualizada e está eroticamente emancipada, como a corporeidade de ambos os sexos ganhou vulto nunca antes alcançado em termos de visibilidade e espaço na vida social. Mas se é verdade que certo “excesso do erótico” pode funcionar como forma de se opor ao longo período de censura e repressão à sexualidade feminina, também é verdade que a mídia contemporânea incentiva a cultura atual à exaltação do corpo. Esta passagem do recato à visibilidade não é gratuita.
Vivemos em sociedades cada vez mais complexas em que o excesso de imagens exige-nos a tarefa permanente de traduzir e discernir este “a mais”. Há uma articulação constante entre a prevalência de imagens, a circulação de informações e estímulos velozes e simultâneos e a produção e consumo de narrativas. Sabemos que a imagem nos constitui e dela nos apossamos em um constante movimento de subjetivação para nos apresentarmos, nos comunicarmos, nos seduzirmos e sermos seduzidos. Se hoje dependemos muito mais do olhar de reconhecimento dos outros sobre nós para afirmar e reafirmar nossa existência e nosso valor, a mídia se alimenta do interesse e acena o tempo todo com a possibilidade de alguns minutos de fama. Ficamos diante desta tênue fronteira que a lógica do consumo e do espetáculo impõe à ética e que descortina ao menos dois fatos da atualidade. Primeiro: cabe à cultura conciliar uma civilização mais erótica e ao mesmo tempo mais livre e mais justa sem que isso se confunda com fundamentos moralistas de comportamento sexual. Segundo: cabe a cada um o gerenciamento da exposição de sua imagem, incluída aí a difícil administração dos apelos sedutores aos minutos de fama, cada vez mais acessíveis, que muitas vezes alimentam nossa sede de amor. Difícil tarefa.

Fonte: Gisela Haddad  Revista Mente Cerebro