Carpe
diem é uma expressão latina presente numa ode do poeta Horácio, da Roma
Antiga, e que ficou popular no fim dos anos 80 por causa do filme
"Sociedade dos poetas mortos", de Peter Weir, em que funcionava como
lema do personagem interpretado por Robin Williams.
Quem
viu não esquece aquele professor de literatura carismático que
subverteu a caretice de uma escola conservadora, exaltando a liberdade e
a poesia, e ensinando seus alunos a pensar por si mesmos. Carpe diem
significa "aproveite o dia de hoje", ou seja, desconfie do amanhã, não
se preocupe com o futuro, não deixe passar as oportunidades de prazer e
gozo que lhe são oferecidas aqui e agora.
Ele
me foi lembrado por um amigo numa conversa em que lamentávamos algumas
ameaças à saúde que atingiram pessoas queridas. Em proporções mais
dramáticas, era um pouco daquilo que Ronaldo Fenômeno resumiu na sua
emocionante despedida. Como as dele, eram derrotas para o corpo.
Trapaças que ele apronta na forma de um tombo traiçoeiro ou do defeito
de uma peça do nosso mecanismo.
Falávamos
de quanto tempo se perde com bobagens que nos aborrecem além da conta,
deixando passar momentos preciosos como, por exemplo, uma dessas nossas
luminosas manhãs que nenhuma outra
cidade consegue produzir com igual esplendor. Desprezamos por piegas as
emoções singelas e vivemos à espera das ocasiões especiais, de um
estado permanente de felicidade, sonhando com apoteoses e sentindo
saudades do passado e até do futuro, sem curtir o presente. Só quando
surge a perspectiva da perda é que damos valor a deleites simples ao
nosso alcance, como ler um bom livro, ouvir uma boa música, ver Alice
sorrir, assistir a "O discurso do rei", ver o "Sarau", de Chico
Pinheiro, receber o afago de leitor(a), voltar a andar no calçadão,
beber uma água de coco ou admirar o pôr do sol no Arpoador. Foi depois
desse papo de exaltação hedonista que meu amigo concluiu que, como o
destino nem sempre avisa quando vai aprontar, urge curtir enquanto é
tempo — carpe diem. O grande poeta pernambucano Carlos Pena Filho, que
morreu aos 31 anos num acidente de carro, em 1960, disse mais ou menos o
mesmo num dos mais belos sonetos da língua portuguesa, "A solidão e sua
porta", que termina assim:
Lembra-te que afinal te resta a vida
Com tudo que é insolvente e provisório
E de que ainda tens uma saída
Entrar no acaso e amar o transitório.
ZUENIR VENTURA
Fonte: http://cultcarioca.blogspot.com.br