Aparentemente
aquele dia amanheceu igual a todos os outros do mês de janeiro. Céu
azul, lavado, um sol forte e musculoso ainda se espreguiçando, uma
promessa de calor. Manhã sob medida para turistas, estudantes em férias e
desempregados. O Rio, quando quer, sabe como nenhuma outra cidade se
enfeitar para o verão. D. Odete Araújo abriu a janela de sua casinha em
Bangu e girou a cabeça como se tentando perscrutar o tempo. Viu um
cidadão parado na calçada segurando um cigarro. A fumaça do cigarro
subia em linha reta, parecia traçada a régua. Não havia a mais leve
brisa no ar. D. Odete respirou fundo, passou as costas da mão na testa
gotejante e comentou com a vizinha:
— Acho que hoje chegaremos aos 45 graus.
Os
moradores de Bangu entendem mais do que todos de altas temperaturas. A
vizinha deu de ombros. Um grau a mais ou a menos não faz diferença neste
inferno suburbano. Na véspera, os termômetros de Bangu acusaram 44.8
graus, quebrando os recordes dos anos de 84, 85, 86 e 87. D. Odete
comentou num tom cabalístico que aquele era o 13º dia consecutivo que o
Rio se debatia com uma febre de 40 graus.
No
Centro da cidade, um movimento típico das manhãs de verão. As pessoas
procurando as sombras, procurando os bares, procurando diminuir o ritmo.
Nada de anormal. O contínuo Ademar Ferreira, porém, percebeu o
termômetro digital, que uma hora antes acusava 43 graus, agora marcando
48. O amigo, com quem conversava numa esquina da Avenida Rio Branco,
disse que os termômetros estavam de miolo mole. Ontem vira um marcando
54 graus. Ademar continuou conversando, tornou a olhar o termômetro: 49
graus. Notou certa inquietação no ar. Os transeuntes se mexiam mais,
tiravam o paletó, afrouxavam a gravata: 50 graus. Outras pessoas
começaram a perceber a escalada dos termômetros. O calor aumentava: 51
graus. Um grupo preocupado se reuniu em torno de um orelhão e ligou para
o Serviço de Meteorologia. O que está acontecendo? Os cientistas
admitiam que a temperatura subia. vertiginosa, mas desconheciam as
razões. Estavam acompanhando uma frente fria encalhada na Patagônia.
As
pessoas se aglomeravam diante dos termômetros como se acompanhassem o
movimento de apostas no Jóquei: 53 graus. As expressões revelavam medo e
tensão. O calor tornava-se escaldante. Era como se tivessem ligado o
forno da Rio Branco: 55 graus. Não dava mais para ficar exposto ao sol.
As pessoas procuraram proteção embaixo das marquises. Muitas, nervosas,
se refugiavam em lojas e escritórios com ar condicionado: 56 graus. Um
bando de honrados cidadãos invadiu uma loja de eletrodomésticos:
—
Liguem os ventiladores, pelo amor de Deus! — Infelizmente vendemos
todos — respondeu o vendedor, torcendo o lenço empapado de suor.
Na
Zona Sul o pânico se alastrava como um rastilho de pólvora. Edevaldo
Santos, vendedor de picolés na praia, notou que algo estranho acontecia
quando abriu a caixa de isopor e viu os palitos boiando num caldo de
sorvete: 60 graus. Não dava mais para atravessar a areia quente. Quem
ficou na praia já não podia sair. Dois helicópteros procuravam
transportar os banhistas. Primeiro, velhos e crianças! A praia, como a
cidade, já estava sob o império do caos, apesar das rádios e televisões
pedirem calma à população. A corda que pendia dos helicópteros era
disputada a tapa: 65 graus. Faltava ar, a garganta secava, o corpo
parecia incandescente. A estudante Luísa Coelho lembrou-se de Joana
D'Arc. Teve início a invasão de bares, restaurantes, supermercados.
Todos corriam às prateleiras de bebidas. Água, refrigerantes, cerveja,
vinho, champanhe, qualquer líquido. Tinha gente bebendo Pinho-Sol.
O
trânsito enlouqueceu de vez. Os motoristas abandonavam seus carros nos
congestionamentos. Os ônibus eram largados em qualquer lugar. Os
veículos transformavam-se em fornos crematórios: 74 graus. Os pneus
começaram a derreter. Nas ruas as pessoas iam se desfazendo das roupas.
Vários executivos foram vistos se esgueirando pelos cantos, de cueca,
meias e pasta. Começou a invasão dos apartamentos com ar condicionado.
Eles viraram uma espécie de abrigo nuclear. Só na minha sala havia 67
pessoas se empurrando para botar a cara na frente do aparelho: 80 graus.
De repente ouviu-se um ruído e logo o silêncio do ar-condicionado. A
cidade ficara sem energia. O calor derreteu os cabos da Light. O sol
esquentava os vidros e o concreto dos prédios. Era insuportável o calor
nos apartamentos. A população desesperada saiu às ruas à cata de
sombras. Num poste em Madureira havia 23 pessoas espremidas e perfiladas
ao longo de sua tira de sombra: 84 graus!
Os
carros dos Bombeiros circulavam pelas ruas com um restinho de água
molhando a população. "Aqui, aqui! Joga aqui antes que eu pegue fogo!"
Os chafarizes da cidade. estavam mais cheios do que trem da Central.
Milhares de. pessoas mergulhavam na Lagoa Rodrigo dA Freitas. Só que
esta, como as outras lagoas da cidade, secava rapidamente. As poucas
matas pegavam fogo. As ruas de terra rachavam ao melhor estilo
nordestino. O asfalto começou a borbulhar. Ploft! A cidade se
transformava num caldeirão: 88 graus. No cais do porto os marinheiros se
atiravam do convés como se os navios estivessem naufragando. No Santos
Dumont um avião da Ponte-Aérea, ao invés de levantar vôo, embicou dentro
d'água. O piloto foi aplaudidíssimo pelos passageiros.
A
temperatura estava em torno dos 94 graus. No Sumaré as antenas das
emissoras de televisão adernavam, desmaiando lentamente. O Pão de Açúcar
começou a derreter como um sorvete de casquinha. Uma mancha escura se
espalhava pelo mar. No meio, boiando, o bondinho com turistas americanos
fotografando tudo. Outros morros também derretiam. O Dois Irmãos, para
surpresa geral, entrou em erupção. A estátua de Cristo tinha
desaparecido do alto do Corcovado. Dizem que, quando o morro começou a
desmanchar, Ele saiu voando com seus braços abertos. Todo mundo já
estava tendo visões e alucinações. Nas calçadas da Visconde de Pirajá —
lado da sombra — as pessoas se arrastavam aos gritos de "água, água".
Eram inúmeras as miragens. O pipoqueiro Manuel de Souza jura que viu as
Sete Quedas na Praça Nossa Senhora da Paz.
As
17h12min, por fim, o sol começou a perder a força. As pessoas, ainda
desconfiadas, foram saindo de dentro das geladeiras, freezers,
frigoríficos. Nas câmaras frigoríficas da Cibrazem — contou-se ... —
havia 12 mil 344 pessoas. Uma sensação de forno quente pairava sobre o
Rio. Somente à meia-noite os termômetros voltaram ao normal: 40 graus.
Terminara o efeito-estufa, deixando um rastro de dor e destruição. Não
havia uma única gota d'água na cidade. Fomos dormir e no Day After, como
não havia trabalho, saímos todos para a praia. Pois creiam: no meio do
comércio de sanduíches naturais, chapéus, cocadas, óleo para bronzear, o
diabo, já tinha nego vendendo um aparelhozinho para dessalinizar a água
do mar.
Carlos Eduardo Novaes