terça-feira, 26 de junho de 2012

PERDOAR OS PAIS

Desfazer aquilo que foi feito pela sociedade é a religião verdadeira - desfazer todo o absurdo que tem sido feito pelos seus benfeitores.

Eles podem achar que o estão ajudando, mas podem estar destruindo-o sem saber. Eles próprios podem ser vítimas dos pais e da sociedade. Eu não estou dizendo nada contra eles. Eles precisam de grande compaixão.

Gurdjieff costumava dizer a seus discípulos que um homem somente se torna religioso quando é capaz de perdoar os pais.

Perdoar? Sim, é assim que é. É muito difícil. No momento em que você se torna consciente, é muito difícil, quase impossível, perdoar seus pais, porque eles fizeram tantas coisas a você! Sem saber, é claro, num comportamento inconsciente, claro, mas ainda assim fizeram.

Eles destruíram seu amor e lhe deram a lógica morta. Eles destruíram sua inteligência e lhe deram, como substituto, o intelecto. Eles destruíram sua vida e sua vivacidade e lhe deram um padrão fixo de vida, um plano para se apoiar.

Eles destruíram sua direção e lhe deram uma destinação. Eles destruíram sua celebração e o transformaram em utilidades do mercado. É muito difícil perdoá-los, daí todas as antigas tradições dizerem para se respeitarem os pais.

É difícil perdoá-los; é muito, muito difícil respeitá-los. Mas se você compreender você os perdoará. Você dirá o mesmo que Jesus disse na cruz: “Pai, perdoai-os, pois eles não sabem o que fazem”.

Sim, são exatamente essas as palavras.

E todo mundo está na cruz - e a cruz não é preparada pelos seus inimigos, mas pelos seus pais, pela sociedade... e todo mundo está crucificado.

Osho
Fonte:www.confrariadosdespertos.blogspot.com

domingo, 24 de junho de 2012

O MEDO

Você não admite para os outros, mas está com medo. Anda com medo. Na hora tranqüila da cabeça no travesseiro ele aparece. Faz tempo. O resultado você conhece. É um sentimento meio difuso, estranho, que acompanha o seu sono, os sonhos, os seus passos e aperta o seu coração mesmo sem nenhum perigo imediato. Está tudo bem com você, e num instante ele está lá. É uma das doenças do nosso tempo. Um filho do Kali Yuga que conta com a nossa ajuda, já que estamos sempre dormindo acordados. Ele se transveste de várias formas como agitação, preocupação, ansiedade, nervosismo, tensão, pavor, fobia, etc. e é sempre algo que poderá acontecer, nada no momento. Você, ou melhor, o seu corpo está aqui e agora, e a sua mente está no futuro.  Há um intervalo aí no meio, um espaço. Nele cresce a angústia. Você está identificado com a sua mente e perdeu o contato com a simplicidade e o poder do Agora. 
Essa angústia será sua companhia constante. Sabe o porque? Se ela fosse apenas um fato comum que acontece na vida, você até poderia saber o que fazer mas ela é outra coisa, é apenas uma projeção mental. Não tem jeito lidar com a pré-ocupação, com o futuro. Quando você não está no Agora, quem está por trás do seu mental é o ego. Ele é um ser mimado, vulnerável, medroso e inseguro, mesmo que se finja de forte. Ele só vê ameaça em tudo. Está aí a raiz do medo.

A gente é como uma carruagem, com o dono, o cocheiro, o cavalo e a própria carruagem. Em outras palavras, o Eu verdadeiro, a mente, a emoção e o corpo., Pense bem: se esse “eu falso, o ego” que tomou o lugar do cocheiro da carruagem é medroso, e a emoção é a reação do corpo à mente, que mensagem o corpo está recebendo do ego, o falso eu interior construído pela mente? Perigo, perigo, estamos sendo ameaçados. E qual é a emoção gerada? Medo, é claro.

O medo parece ter muitas causas. Temos medo de perder, falhar, ser feridos, mas todos os medos podem se resumir a um só: o medo que o ego tem da morte. Para o ego, a morte está rondando. Quando estamos identificados com o ego substituindo a mente, o medo da morte afeta cada aspecto da nossa vida, mesmo que a gente conscientemente não se dê conta disso.

Quer um exemplo? Numa discussão corriqueira, porque eu tenho uma necessidade de estar certo e demonstrar que o outro está errado? Se descobrirmos que estamos errados, nosso ego dentro da mente sente que corre um risco de destruição. Então como o ego, você não pode errar. Errar é morrer. Os relacionamentos terminam por isso, as guerras acontecem por isso. Se os nossos líderes estivessem no Agora, não haveria guerras.

Agora imagine que eu consiga não me identificar com o ego na mente. O que acontece? A rigor, não faz a menor diferença para o nosso verdadeiro Eu Interior se eu estou certo ou errado.Ter sempre razão é uma forma disfarçada de violência, e na hora em que você consegue ficar no Agora ela vai desaparecer.  Dá perfeitamente para a gente dar a nossa opinião tranqüila e calma sobre qualquer assunto sem ser agressivo ou tentar ganhar a qualquer preço. Sem agressividade ou defesa. Se estivermos centrados no instante exato que se levanta o ego na discussão, o sentido do eu interior passa a fluir de um lugar profundo dentro de mim, não mais da minha mente contaminada pelo ego.


Faça sempre a pergunta para você: O que eu estou de fato defendendo? Depois de algumas vezes desse exercício, a gente começa a fluir e ganhar liberdade e espaço. Tente também o seguinte: “vou entrar nessa discussão e perder deliberadamente, mesmo “tendo razão, como sempre” e tentar usufruir do resultado, seja ele qual for”. O resultado vai ser...experimente você mesmo. Como dizem os mestres ao trazer esse padrão à consciência, ao testemunhá-lo, você deixa de se identificar com ele. À luz da sua consciência, o padrão de inconsciência irá se dissolver rapidamente.
Esse é o fim de todos os argumentos e jogos de poder, tão prejudiciais aos relacionamentos, e sempre nos arrependemos deles depois da disputa. O poder sobre os outros é a fraqueza disfarçada de força.

 O Tai Chi faz exatamente isso: o bom lutador aguarda o golpe furioso do adversário e aproveitando-se da força dele, sem oposição, mas num gesto redondo de acolhimento o derruba e domina. Se você se colocar no Agora, vai perceber que o poder de fato é interior, não está fora, não pede aprovação e aplauso, e está à sua disposição. Agora. O remédio está no Agora, pois nele não há futuro, não há preocupação. O único jeito de saber se é verdade, é começar a praticar...

Fonte: http://serluminoso.blogspot.com.br

quinta-feira, 21 de junho de 2012

DA AMIZADE

Existem tantos textos lindos e profundos sobre a amizade que mal me atrevo a tentar explicar ou descrever este sentimento. Outro dia li uma frase de Yogananda onde ele explicava a amizade como uma atração entre duas almas. Se amor de mãe é o amor mais próximo do Amor de verdade, amor de amigo vem em segundo lugar, pois amigo, amigo mesmo, é amigo e pronto. Não tem condições, não tem talvez, é amigo. É o irmão que a gente escolhe e muitas vezes são irmãos mesmo, talvez por já terem começado a amizade em outros planos.

Amigo de verdade traz aquela sensação de colo quente, de confiança, de cuidado. Dizer que ter amigos é bom, não combina, ter amigos é fundamental para sermos humanos. Ser um amigo, é ser um Yogi.

Ser um amigo é praticar a não violência seja com gestos, atos ou palavras, é falar a verdade com amor, é  não retirar do seu amigo o que só cabe a ele,  é a conservação de energias que une os dois, ou três, ou quantos forem. Ser amigo é ter pureza de pensamentos, desejando o melhor para o outro, é aceitar o que há de diferente entre vocês, é manter-se firme nas situações mais adversas, conhecer-se a cada dia, pois seu amigo lhe ajuda nesse processo. No convívio com o outro é que aprendemos mais sobre nós do que sobre o outro. Ser e ter amigos é realmente uma atração divina entre duas almas. É uma forma de exercitar o amor.
Fonte:http://laiyoga.blogspot.com.br/

terça-feira, 19 de junho de 2012

AS QUATRO CHAMAS

Quatro velas estavam queimando calmamente.
O ambiente estava tão silencioso que podia-se ouvir o diálogo entre elas.
A primeira disse:
-Eu sou a PAZ !

Apesar da minha luz as pessoas não conseguem manter-me acesa.
E diminuindo sua chama devagarzinho apagou-se totalmente.
A segunda disse:
-Eu me chamo FÉ.
Infelizmente sou supérflua para as pessoas.
Como elas não querem saber de Deus, não faz sentido eu continuar queimando.
Ao terminar sua fala, um vento bateu levemente sobre ela, e esta se apagou.
Baixinho e triste a terceira vela se manifestou:
- Eu sou o AMOR!

Não tenho mais forças para queimar.
As pessoas me deixam de lado, porque só conseguem enxergar elas mesmas, esquecem até daqueles que estão à sua volta.
E também se apagou.
De repente!!!

Entrou uma criança e viu as três velas apagadas...-Que é isto?
Vocês devem ficar acesas até o fim..
Então a quarta vela falou:
-Não tenhas medo,sou a ESPERANÇA e enquanto eu estiver acesa podemos acender as outras..

Que nossos pensamentos estejam sempre claros e positivos, para
que nossas ações sejam determinadas e bem sucedidas.
Fonte:http://saintgermanchamavioleta.blogspot.com.br

segunda-feira, 11 de junho de 2012

RETRATOS PARA ETERNIDADE...

A necessidade de auto-conhecimento, de exploração do corpo e da mente provém de um recanto da nossa memória. Todos procuramos fontes de equilíbrio em cada acção que realizamos, que posteriormente se transformam numa sensação geradora de sensações no estado das pessoas. Não seremos um reflexo de tudo que o que está à nossa volta e do modo que observamos e sentimos o mundo? Não estaremos todos ligados por uma corrente, que nos faz ser parte integral de todos os nossos antepassados?
Apesar das limitações que nos impõe a sociedade, sou (e somos) um espelho de toda a herança cultural que descobri na história da Humanidade. Sem mais palavras, sou (e somos) um movimento eterno, do tempo, da continuidade da vida para além de todo o resto… Partindo da premissa “ uma fotografia para a eternidade”, de Pina Baush, tentei desenvolver um trabalho que passou por duas fases de experimentação. A primeira passou pela tentativa expor em vídeo imagens que me constroem diariamente e a segunda foi a tentativa de expor o que fica para alguém da nossa imagem externa .
Todos os dias expomo-nos aos olhares curiosos de uma sociedade camuflada com uma camada densa que cobre a sua verdadeira essência. Vestidos com farrapos que nos tapam dos pés à cabeça que escondem o mais puro e natural da natureza Humana. O que fica para lá do que os nossos olhos vêem? O nosso lado mais íntimo e genuíno. O mundo sensível, o nosso Eu interior… Segundo António Damásio, em O Mistério da Consciência, "a consciência é o termo abrangente para designar os fenómenos mentais que permitem o estranho processo que faz do Homem o observador ou conhecedor das coisas observadas.” Que consciência temos nós deste facto? O retrato para a eternidade é aquele que vai além da frágil aparência, é aquele que vai além dos olhos… O retrato para a eternidade é o que é negado ou escondido pela segurança da pose. O retrato para a eternidade somos nós no nosso estado mais lato. Nus, sensíveis, Humanos… 


 Fonte:http://retalhosdearte.blogspot.com.br

sábado, 9 de junho de 2012

JANELAS DA VIDA

Amor não se implora, não se pede não se espera...
Amor se vive ou não.
Ciúmes é um sentimento inútil. Não torna ninguém fiel a você.
Animais são anjos disfarçados, mandados à terra por Deus para mostrar ao homem o que é fidelidade.
Crianças aprendem com aquilo que você faz, não com o que você diz.
As pessoas que falam dos outros pra você, vão falar de você para os outros.
Perdoar e esquecer nos torna mais jovens.
Água é um santo remédio.
Deus inventou o choro para o homem não explodir.
Ausência de regras é uma regra que depende do bom senso.
Não existe comida ruim, existe comida mal temperada.
A criatividade caminha junto com a falta de grana.
Ser autêntico é a melhor e única forma de agradar.
Amigos de verdade nunca te abandonam.
O carinho é a melhor arma contra o ódio.
As diferenças tornam a vida mais bonita e colorida.

Há poesia em toda a criação divina.

Deus é o maior poeta de todos os tempos.
A música é a sobremesa da vida.
Acreditar, não faz de ninguém um tolo. Tolo é quem mente.
Filhos são presentes raros.
De tudo, o que fica é o seu nome e as lembranças acerca de suas ações.

Obrigado, desculpa, por favor, são palavras mágicas, chaves que abrem portas para uma vida melhor.

O amor... Ah, o amor...
O amor quebra barreiras, une facções, destrói preconceitos, cura doenças...
Não há vida decente sem amor!
E é certo, quem ama, é muito amado.
E vive a vida mais alegremente...



"Artur da Távola"

quarta-feira, 6 de junho de 2012

NÃO CANSE QUEM TE QUER BEM

Foi durante o programa Saia Justa que a atriz Camila Morgado, discutindo sobre a chatice dos outros (e a nossa própria), lançou a frase: Não canse quem te quer bem. Diz ela que ouviu isso em algum lugar, mas enquanto não consegue lembrar a fonte, dou a ela a posse provisória desse achado.

Não canse quem te quer bem. Ah, se conseguíssemos manter sob controle nosso ímpeto de apoquentar. Mas não. Uns mais, outros menos, todos passam do limite na arte de encher os tubos. Ou contando uma história que não acaba nunca, ou pior: contando uma história que não acaba nunca cujos protagonistas ninguém ouviu falar. Deveria ser crime inafiançável ficar contando longos causos sobre gente que não conhecemos e por quem não temos o menor interesse. Se for história de doença, então, cadeira elétrica.

Não canse quem te quer bem. Evite repetir sempre a mesma queixa. Desabafar com amigos, ok. Pedir conselho, ok também, é uma demonstração de carinho e confiança. Agora, ficar anos alugando os ouvidos alheios com as mesmas reclamações, dá licença. Troque o disco. Seus amigos gostam tanto de você, merecem saber que você é capaz de diversificar suas lamúrias.

Não canse quem te quer bem. Garçons foram treinados para te querer bem. Então não peça para trocar todos os ingredientes do risoto que você solicitou – escolha uma pizza e fim.

Seu namorado te quer muito bem. Não o obrigue a esperar pelos 20 vestidos que você vai experimentar antes de sair – pense antes no que vai usar. E discutir a relação, só uma vez por ano, se não houver outra saída.

Sua namorada também te quer muito bem. Não a amole pedindo para ela posar para 297 fotos no fim de semana em Gramado. Todo mundo já sabe como é Gramado. Tirem duas, como lembrança, e aproveitem o resto do tempo.

Não canse quem te quer bem. Não peça dinheiro emprestado pra quem vai ficar constrangido em negar. Não exija uma dedicatória especial só porque você é parente do autor do livro. E não exagere ao mostrar fotografias. Se o local que você visitou é realmente incrível, mostre três, quatro no máximo. Na verdade, fotografia a gente só mostra pra mãe e para aqueles que também aparecem na foto.

Não canse quem te quer bem. Não faça seus filhos demonstrarem dotes artísticos (cantar, dançar, tocar violão) na frente das visitas. Por amor a eles e pelas visitas.

Implicâncias quase sempre são demonstrações de afeto. Você não implica com quem te esnoba, apenas com quem possui laços fraternos. Se um amigo é barrigudo, será sobre a barriga dele que faremos piada. Se temos uma amiga que sempre chega atrasada, o atraso dela será brindado com sarcasmo. Se nosso filho é cabeludo, “quando é que tu vai cortar esse cabelo, guri?” será a pergunta que faremos de segunda a domingo. Implicar é uma maneira de confirmar a intimidade. Mas os íntimos poderiam se elogiar, pra variar.

Não canse quem te quer bem. Se não consegue resistir a dar uma chateada, seja mala com pessoas que não te conhecem. Só esses poderão se afastar, cortar o assunto, te dar um chega pra lá. Quem te quer bem vai te ouvir até o fim e ainda vai fazer de conta que está se divertindo. Coitado. Prive-o desse infortúnio. Ele não tem culpa de gostar de você.

MARTHA MEDEIROS

  http://cultcarioca.blogspot.com.br

segunda-feira, 4 de junho de 2012

O SOFRIMENTO DO HIPÓCRITA

Ter mentido é ter sofrido. 0 hipócrita é um paciente na dupla acepção da palavra; calcula um triunfo e sofre um suplício. A premeditação indefinida de uma ação ruim, acompanhada por doses de austeridade, a infâmia interior temperada de excelente reputação, enganar continuadamente, não ser jamais quem é, fazer ilusão, é uma fadiga. Compor a candura com todos os elementos negros que trabalham no cérebro, querer devorar os que o veneram, acariciar, reter-se, reprimir-se, estar sempre alerta, espiar constantemente, compor o rosto do crime latente, fazer da disformidade uma beleza, fabricar uma perfeição com a perversidade, fazer cócegas com o punhal, por açúcar no veneno, velar na franqueza do gesto e na música da voz, não ter o próprio olhar, nada mais difícil, nada mais doloroso. 0 odioso da hipocrisia começa obscuramente no hipócrita. Causa náuseas beber perpétuamente a impostura. A meiguice com que a astúcia disfarça a malvadez repugna ao malvado, continuamente obrigado a trazer essa mistura na boca, e há momentos de enjôo em que o hipócrita vomita quase o seu pensamento. Engolir essa saliva é coisa horrível. Ajuntai a isto o profundo orgulho. Existem horas estranhas em que o hipócrita se estima. Há um eu desmedido no impostor. 0 verme resvala como o dragão e como ele retesa-se e levanta-se. 0 traidor não é mais que um déspota tolhido que não pode fazer a sua vontade senão resignando-se ao segundo papel. É a mesquinhez capaz da enormidade. 0 hipócrita é um titã-anão.

Victor Hugo

sexta-feira, 1 de junho de 2012

A VISITA DO ANJO

O homem estava pegando as chaves do carro (a mulher já tinha saído para levar as crianças à escola) quando tocaram a campainha.
Irritado, pois já se atrasara bastante, ele abre a porta:
- Sim?
O ser andrógino, belo e feio, alto e baixo, negro e louro, faz um sinalzinho dobrando o indicador:
- Vim buscar você.
Não era preciso explicar, o homem entendeu na hora: o Anjo da Morte estava ali, e não havia como escapar. Mas, acostumado a negociações, mesmo perturbado ele rapidamente pensou que era cedo, cedo demais, e tentou argumentar:
- Mas, como, o quê? Agora, assim, sem aviso sem nada? Nem um prazo decente?
O Anjo sorri um sorriso bondoso e perverso, suspira e diz:
- Mas ninguém tem a originalidade de me receber com simpatia neste mundo, ninguém nunca está preparado? Está certo que você só tem quarenta anos, mas mesmo os de oitenta...
O homem agarrou mais firme a chave do carro que acabara encontrando no bolso do paletó, e insistiu:
- Vem cá, me dá uma chance.
O Anjo teve pena, aquele grandalhão estava realmente apavorado. Ah, os humanos... Então teve um acesso de bondade e concedeu:
- Tudo bem. Eu te dou uma chance, se você me der três boas razões para não vir comigo desta vez.
(Passava um brilho malicioso nos olhos azuis e negros daquele Anjo?)
O homem aprumou-se, claro, ele sabia que ia dar certo, sempre fora bom negociador. Mas, quando abria a boca para começar sua ladainha de razões - muito mais que três, ah sim -, o Anjo ergueu um dedo imperioso:
- Espera aí. Três boas razões, mas... não vale dizer que seus negócios precisam ser organizados, sua mulher nem sabe assinar cheque, seus filhos nada conhecem da realidade. O que interessa é você, você mesmo. Por que valeria a pena ainda te deixar aqui por algum tempo?
Já narrei essa fábula em outro livro, e nele quem abria a porta era uma mulher. A objeção que o Anjo lhe fazia antes de ela começar a recitar seus motivos era:
- Não vale dizer que é porque marido e filhos precisam de você...
Muitas vezes contei essa historinha, e inevitavelmente homens e mulheres ficam surpresos e pensativos, sem resposta imediata ainda que de brincadeira.
E nós? Com que argumentos persuadiríamos o anjo visitante de ainda não nos levar?
Eles seriam falsos, inventados na hora, ou brotariam da nossa eventual contemplação - e reavaliação - da vida, e do sentido de tudo, de nossos projetos e esperanças?
Isto é, se acaso alguma vez interrompemos nossa agitação para um questionamento desses. Pois em geral nos atordoamos na agitação da mídia, da moda, do consumo, da corrida pelo melhor salário, melhor lugar, melhor mesa no restaurante, melhor modo de enganar o outro e subir.
Ainda que infimamente em nosso ínfimo posto.

LYA LUFT 

Fonte:http://cultcarioca.blogspot.com.br