Você
não admite para os outros, mas está com medo. Anda com medo. Na hora
tranqüila da cabeça no travesseiro ele aparece. Faz tempo. O resultado
você conhece. É um sentimento meio difuso, estranho, que acompanha o seu
sono, os sonhos, os seus passos e aperta o seu coração mesmo sem nenhum
perigo imediato. Está tudo bem com você, e num instante ele está lá. É
uma das doenças do nosso tempo. Um filho do Kali Yuga que conta com a
nossa ajuda, já que estamos sempre dormindo acordados. Ele se transveste
de várias formas como agitação, preocupação, ansiedade, nervosismo,
tensão, pavor, fobia, etc. e é sempre algo que poderá acontecer, nada no
momento. Você, ou melhor, o seu corpo está aqui e agora, e a sua mente
está no futuro. Há um intervalo aí no meio, um espaço. Nele cresce a
angústia. Você está identificado com a sua mente e perdeu o contato com a
simplicidade e o poder do Agora.
Essa
angústia será sua companhia constante. Sabe o porque? Se ela fosse
apenas um fato comum que acontece na vida, você até poderia saber o que
fazer mas ela é outra coisa, é apenas uma projeção mental. Não tem jeito
lidar com a pré-ocupação, com o futuro. Quando você não está no Agora,
quem está por trás do seu mental é o ego. Ele é um ser mimado,
vulnerável, medroso e inseguro, mesmo que se finja de forte. Ele só vê
ameaça em tudo. Está aí a raiz do medo.
A
gente é como uma carruagem, com o dono, o cocheiro, o cavalo e a
própria carruagem. Em outras palavras, o Eu verdadeiro, a mente, a
emoção e o corpo., Pense bem: se esse “eu falso, o ego” que tomou o
lugar do cocheiro da carruagem é medroso, e a emoção é a reação do corpo
à mente, que mensagem o corpo está recebendo do ego, o falso eu
interior construído pela mente? Perigo, perigo, estamos sendo ameaçados.
E qual é a emoção gerada? Medo, é claro.
O
medo parece ter muitas causas. Temos medo de perder, falhar, ser
feridos, mas todos os medos podem se resumir a um só: o medo que o ego
tem da morte. Para o ego, a morte está rondando. Quando estamos
identificados com o ego substituindo a mente, o medo da morte afeta cada
aspecto da nossa vida, mesmo que a gente conscientemente não se dê
conta disso.
Quer
um exemplo? Numa discussão corriqueira, porque eu tenho uma necessidade
de estar certo e demonstrar que o outro está errado? Se descobrirmos
que estamos errados, nosso ego dentro da mente sente que corre um risco
de destruição. Então como o ego, você não pode errar. Errar é morrer. Os
relacionamentos terminam por isso, as guerras acontecem por isso. Se os
nossos líderes estivessem no Agora, não haveria guerras.
Agora
imagine que eu consiga não me identificar com o ego na mente. O que
acontece? A rigor, não faz a menor diferença para o nosso verdadeiro Eu
Interior se eu estou certo ou errado.Ter
sempre razão é uma forma disfarçada de violência, e na hora em que você
consegue ficar no Agora ela vai desaparecer. Dá perfeitamente para a
gente dar a nossa opinião tranqüila e calma sobre qualquer assunto sem
ser agressivo ou tentar ganhar a qualquer preço. Sem agressividade ou
defesa. Se estivermos centrados no instante exato que se levanta o ego
na discussão, o sentido do eu interior passa a fluir de um lugar
profundo dentro de mim, não mais da minha mente contaminada pelo ego.
Faça
sempre a pergunta para você: O que eu estou de fato defendendo? Depois
de algumas vezes desse exercício, a gente começa a fluir e ganhar
liberdade e espaço. Tente também o seguinte: “vou entrar nessa discussão
e perder deliberadamente, mesmo “tendo razão, como sempre” e tentar
usufruir do resultado, seja ele qual for”. O resultado vai
ser...experimente você mesmo. Como
dizem os mestres ao trazer esse padrão à consciência, ao testemunhá-lo,
você deixa de se identificar com ele. À luz da sua consciência, o
padrão de inconsciência irá se dissolver rapidamente.
Esse
é o fim de todos os argumentos e jogos de poder, tão prejudiciais aos
relacionamentos, e sempre nos arrependemos deles depois da disputa. O
poder sobre os outros é a fraqueza disfarçada de força.
O
Tai Chi faz exatamente isso: o bom lutador aguarda o golpe furioso do
adversário e aproveitando-se da força dele, sem oposição, mas num gesto
redondo de acolhimento o derruba e domina. Se
você se colocar no Agora, vai perceber que o poder de fato é interior,
não está fora, não pede aprovação e aplauso, e está à sua disposição.
Agora. O remédio está no Agora, pois nele não há futuro, não há
preocupação. O único jeito de saber se é verdade, é começar a
praticar...
Fonte: http://serluminoso.blogspot.com.br