Nada
melhor do que não ter nenhuma responsabilidade pessoal
e ter a quem
culpar por tudo que ocorre de ruim.
Depois
que a psicanálise ficou ao alcance de todos, os filhos deitaram e
rolaram nos divãs para falar mal do pai e da mãe; sempre com razão,
aliás, e sem o menor resultado, aliás também.
Quem
são os culpados dos sucessivos casamentos que não deram certo? Os
pais, é claro. Ou porque não tiveram a coragem de se separar, mesmo
vivendo mal, ou porque se separaram, o que pode ter sido visto como
modelo a ser seguido.
Se a
mãe foi uma mulher resignada, dominada pelo marido, que não lutou
por sua independência nem procurou o seu caminho, a filha pode se
tornar uma adulta igual ou virar o oposto: uma vadia que troca de
homem como se troca de camisa. Se essas filhas tiveram um pai que era
um marido exemplar, podem passar a vida perseguindo a imagem paterna
ou, ao contrário, um grande cafajeste, para serem diferentes da mãe.
Culpa de quem? Nem é preciso dizer.
Já se
o pai foi um derrotado que passou a vida infeliz no mesmo emprego
medíocre para dar segurança à família, os filhos podem no futuro
ser ou exatamente iguais ou fazer qualquer coisa para ganhar um
dinheiro fácil, e terminar até na cadeia. Em qualquer dos casos a
culpa foi, é e será, sempre, dos pais.
Já
virou clichê o filho que passa a vida se lamuriando porque a mãe
não contava histórias na hora de dormir, e cujo pai nunca
perguntava pelas notas do colégio quando chegava do trabalho, e ai
daqueles que saíam para uma festa quando os filhos tinham uma
febrinha. Esses passam a vida sofrendo, e sem razão, pois nada
melhor do que não ter nenhuma responsabilidade pessoal e ter a quem
culpar por tudo que acontece de ruim. Mas nunca nenhum deles parou
para pensar como foi a vida desses pais quando crianças. Como foi a
infância deles? Feliz, traumática, triste, infeliz? Terão eles
recebido carinho dos seus próprios pais? Os analistas não costumam
abordar o assunto.
Houve
um tempo -algumas gerações atrás- em que as crianças, quando
faziam uma coisa errada, apanhavam. Quando pequenas levavam palmadas;
já maiores, surra de cinto. Hoje, ai dos pais que perdem a cabeça e
cobram boas notas do colégio ou levantam a voz. O caminho é só um:
arranjar um psicólogo que as crianças frequentarão três vezes por
semana, além da reunião de família semanal, com o pai, a mãe, a
atual mulher do pai e o atual marido da mãe. Reuniões desse tipo
não costumam acabar bem, claro.
As
crianças modernas não estão interessadas em entender as razões
que levaram suas mães e seus pais a serem menos amorosos ou
carinhosos; elas nunca pensaram que a mãe, com 30 anos, mesmo
adorando os filhos, às vezes sufocava quando via um homem atraente,
e que quando assistia a um filme romântico voltava para casa
querendo mandar tudo para o espaço e ir para algum lugar no mundo
onde encontrasse um homem que a olhasse como uma mulher ainda
desejada. Essa mãe não conseguia nem ao menos entender o que se
passava dentro dela; ficava tudo muito confuso, e naqueles tempos não
havia analistas para explicar o que estava acontecendo (e se já
existissem e explicassem, também não resolveria). E qual o pai que
um dia, mesmo amando apaixonadamente seus filhos, não pensou que
talvez ainda fosse muito jovem para tantas responsabilidades, e que
teria sido melhor se tivesse se casado um pouco mais tarde?
Ninguém
quer compreender as razões do outro, e ninguém está interessado em
saber se seus pais tiveram, dos seus pais e mães, o que gostariam de
ter tido.
Porque
os pais e mães de nossos pais e mães também tiveram as suas
razões, e o mundo foi, é e será assim para todo o sempre -e amém.