Temos nos olhado muito. Demoradamente. Olho no olho, assim, bem de
perto. Com algum desconforto, sem dúvida, mas também com coragem. Somos
adultas, as duas. Mas ela ainda brinca comigo. Se esconde atrás dos meus
sentimentos mais confusos, corre que nem doida nas minhas veias.
Escapole por entre os dedos. Tudo nela é pressa, urgência. Eu a conheço
por inteiro, em toda sua cortante profundidade e pequenas doses de
doçura. Nós duas somos sobreviventes e nos conhecemos intimamente. Nos
pertencemos e não temos segredos uma para a outra. Sei do que ela é
feita e há nisso algo de bonito. Tem vezes que me distraio e meio que me
esqueço dela. Resiliente, ela me conhece por dentro e vem logo me
resgatar. Nos entregamos uma a outra sem reservas. Ela sempre vem - às
vezes com calma, cheia de delicadezas. Outras vezes selvagem escoiceando
meu peito. Eu a carrego comigo, sentindo seu peso sobre os ombros. Ela
sou eu. A solidão. Minha solidão sou eu.
Dalva Nascimento
Fonte:http://infinitoparticulardalva.blogspot.com.br