Sim,
álcool faz mal, e existe arte no ato de beber. Cada bebida tem o
copo apropriado, a temperatura ideal, o ritual a ser cumprido,
assinatura do fabricante e história.
Algumas
regras devem ser seguidas, para que uma noite de celebração não
estrague os sóbrios dias seguintes. Apesar de tentador, evite falar
verdades que estão há tempos entaladas no gogó. Risque do mapa as
palavras exorcizar, desabafar. Não é preciso, naquele momento em
que o pileque começa a agir, ser verdadeiro e sincero. Beba, fique
alto, continue sorrindo, fale o mínimo possível e concorde com
tudo. Especialmente se o patrão estiver por perto.
Aos
carentes: na segunda dose, dê o celular para um amigo guardar, para
não mandar mensagens com resoluções definitivas, provas de amor
absoluto, arrependimentos tardios. Nem tente telefonar de madrugada
para uma paixão desfeita que, a essa altura, assinou em cartório
uma declaração de convívio marital com outra pessoa, faz planos de
viagens longas para países exóticos e pesquisa em qual escola
próxima matricularão a prole que será responsável pela mudança
da categoria do veículo familiar de sedam para minivan.
É na
adolescência que o primeiro porre é experimentado. No estágio em
que abandonamos o luditismo infantil, em que nos apontam as
responsabilidades e decisões que virão, descobrimos que o álcool
pode nos deixar soltos, inconsequentes, divertidos, sem o domínio do
corpo e da mente. Quando não somos mais crianças, talvez bebamos
para voltar a ter a irreverência e espontaneidade de uma.
Há
milênios que se descobriu que a fermentação de frutas e cereais dá
barato. Cerveja e vinho foram inventados antes das tampinhas, rolhas,
rótulos e enólogos chatos, que demoram mais tempo cheirando e
olhando a bebida contra a luz do que sorvendo. Muito tempo depois, os
árabes inventaram os destilados. Nasceu o porre homérico. Que não
se sabe se foi relatado na Ilíada ou Odisseia.
Fazemos
bebida de tudo: milho, trigo, cevada, cana, uva, alcachofra, batata,
arroz, anis, maçã, combustível de carro, lancha e avião.
O
vinho talvez seja a bebida mais cultuada. Bíblica, não se deve
tomar um porre dela. Melhor apreciar, degustar. Ou você deseja
acordar com a língua colada no céu da boca e uma sede que o Delta
do Nilo não mataria? Suas variações, champanhe, vinho branco,
prosecco, apesar de populares em casamentos, deveriam vir
acompanhadas por dipirona sódica em gotas. Dores de cabeça são
comuns aos que as ingerem em excesso.
O
remédio que se deve tomar um antes e outro depois ajuda a diminuir
os efeitos físicos de uma ressaca. Porém, a ressaca moral e a
sensação de que até uma ária de um quarteto de cordas de Bach
faria a sua cabeça explodir continuam. Já vi Engov como brinde em
banheiro de casamento. Poderiam incluir o hidróxido de alumínio,
ácido acetilsalicílico e maleato de mepiramina, princípios ativos
do remédio, nos bem-casados que costumamos afanar.
Mas o
profissional tem uma técnica infalível para beber, continuar
bebendo e não dar trabalho: alterna uma taça com um copo de água.
Bebe com a disciplina de um jogador de xadrez. Pensa nos próximos
lances com bastante antecedência. E ouve muito mais do que fala.
É no
Retorno de Saturno, fenômeno astrológico que serve de desculpa para
as irresponsabilidades juvenis, que ocorre a cada 28 anos, que se
descobre que não bastam, como antes, apenas algumas horas de sono
para curar uma ressaca.
Sim,
envelhecer é aprimorar o desejo de que a vida imite a arte e, como
num filme da Lars Von Trier, um planeta se choque com a Terra, depois
de se acordar duma noite daquelas. No segundo Retorno de Saturno,
quando a vítima completa 56 anos, só se toma um porre se está em
dia com o plano de saúde e próximo a hospitais conveniados.
Cada
pessoa tem seu nível de tolerância. Alguns enxugam uma garrafa de
uísque e mantêm a irritante lucidez de um comentarista econômico
em tempo de crise cambial. Outros tomam dois chopes e se comportam
como líderes de uma facção criminosa associada a uma torcida
organizada que chefia a bateria de uma escola de samba.
Há
mais coisas em comum num pileque do que rege os alertas do Ministério
da Saúde. Porre de uísque deixa o bebum inteligente. Acompanhado de
muita água, acorda bem se o armazenamento do mesmo durou 12 anos ou
mais. A não ser, claro, que tenha sido destilado, engarrafado e
envelhecido em toneis paraguaios, produzido pelas águas das
nascentes do Chaco.
Não
existe melhor porre que o de tequila. É a bebida da alegria. Nos
sentimos vibrantes, felizes, como solistas de um grupo mariachi. Sua
ressaca, porém, nos remete ao sofrimento dos inimigos dos Maias,
cujas cabeças rolavam por suas pirâmides.
O
melhor porre não necessariamente implica maior ressaca. Mojito tem a
fórmula mágica de juntar as delícias do rum com o frescor tropical
da hortelã. Como nossa caipirinha, consegue refrescar e abastecer de
vitaminas. O problema é a vontade de dançar salsa sozinho no
banheiro.
Caipirinha,
símbolo pátrio, é a prova de que nossa miscigenação é ampla:
pode ser de saquê do Oriente, vodca eslava ou cachaça nacional;
pode ser açucarada, adoçada, light ou diet; qualquer fruta, doce ou
amarga, se casa com o sabor do destilado de alto teor alcoólico; e,
enfim, vem em cores exuberantes como as do kiwi ou frutas vermelhas,
que deixariam um impressionista impressionadíssimo.
Dry
Martini é a bebida mais conflituosa, pois não existe uma receita
universal. O que mais se escuta em balcões: barman exaltando sua
fórmula secreta. A discussão sobre a receita original do Dry
Martini é mais polêmica do que a tese de que Lee Harvey Oswald agiu
sozinho. Pode vir com a entrada; uma azeitona, ou cebolinha. Seu copo
é exclusivo da bebida. É gelado, mas esquenta. Tem um efeito
psicotrópico prolongado. Alterna o estado da consciência, sem dar
muito trabalho aos amigos.
Em A
Cultural History of Alcohol, Iain Gately escreveu que os pileques dos
nossos antepassados fariam os de hoje parecerem festinhas em
conventos. Desde que se descobriu que o álcool tem ação inibidora
sobre neurônios dopaminérgicos do sistema límbico, o porre tem
assento cativo na história do mundo ocidental e oriental.
Aliás,
foi em 8000 a.C. na China que o primeiro "mé" foi
encontrado, um drinque de arroz, mel, uvas e cerejas fermentadas. Os
sumérios inventaram a "breja", que a elite bebia com
canudinhos de ouro. É sabido que cada peão que erguia as pirâmides
do Egito ganhava em média 5 litros de cerveja por dia.
Em
qualquer achado arqueológico existem mais garrafas de bebida do que
moedas. Tutancâmon, faraó da 18.ª dinastia, foi sepultado com uma
bela máscara de ouro e 26 jarras de vinho. Os gregos tinham 60
variedades da bebida. Os romanos passaram a produzir e distribuir em
larga escala. Soldados romanos ofereciam vinho "de presente"
aos inimigos, para dominá-los na ressaca. Qualquer leitor de Asterix
conhece o truque.
Sem
fazer proselitismo, sabe-se que o alcoolismo é um grave problema de
saúde pública. Mas lembre-se que a bebida já foi considerada
remédio, e que a revolução americana foi liderada por um
fabricante de uísque, George Washington. Sem contar que a Declaração
da Independência foi escrita num boteco da Pensilvânia.
Se
você conseguiu chegar até o final deste texto, beba com moderação.
E é bom lembrar, se for beber não dirija.