Vizinho, em termos. Marte fica a quase 60
milhões de quilômetros --sua menor distância da Terra-- e a viagem tomará sete
meses. Nem a volta do trabalho para casa em São Paulo leva tanto tempo. Para
isso, os candidatos a colonos-astronautas terão de suportar oito anos de
treinamento, passar por centenas de simulações de voo e pouso e se habituar à
miserável dieta que terão de praticar por lá. Diante disso, muitos dos
selecionados cairão pelo caminho. Beatriz espera chegar às finais --foi até
escolhida para estrelar um documentário promocional sobre a viagem.
Mas temo que essa empreitada exija um tipo
diferente de pessoa --alguém que já tenha um razoável histórico de resiliência
e dê provas diárias de que suporta agruras, revezes e privações sem perder a
pose. Alguém que, certo de suas convicções, enfrente a fúria dos elementos em
defesa delas. Enfim, alguém sobre quem não reste a menor dúvida.
O pastor Marcos Pereira, por exemplo. Com seu
visual de vilão do cinema mudo --a que não faltam as olheiras de rolha
queimada-- e acusado de estupro de fiéis, envolvimento com o tráfico, lavagem
de dinheiro, participação em homicídio e arrotar sem motivo justo, ele está
certo de que um "homem de branco" descerá das nuvens e o libertará
dos aposentos de onde está vendo o sol nascer quadrado. "A cadeia não tem
como me segurar", diz.
É de homens como ele que Marte precisa.
Ruy Castro
Fonte: http://cultcarioca.blogspot.com.br